É intrigante o fato
das pessoas darem mais valor às coisas dos outros, dos estrangeiros,
coisas de fora, do que o que é seu, de sua comunidade, de um 'igual'
por assim dizer.
Lendo alguns blog
percebi que muitas pessoas colocam algo e/ou citam alguém, e sem
pesquisar, informam que aquilo publicado é de Fulano de Tal lá dos
Cafundós.
Talvez porque achem
chique colocar uma citação de um estrangeiro, como se ninguém da
nossa terra pudesse ser tão culto ou mais. Ou talvez porque saibam
que as pessoas consideram isso chique, louvável.
É aquela velha
história se repetindo: as pessoas dão mais valor ao que é de fora.
Quem nunca ouviu isso? Quem nunca falou isso?
O problema é que
até mesmo quem fala acredita nisso.
Um ótimo exemplo
são as palavras do nosso dia a dia que estão cada vez mais se
americanizando. Ahh, por favor. Um assunto como esse tão comentado,
e vou encher o saco de vocês de novo? Não, não vou. Calma. Foi só
pra exemplificar.
Escrevo estas poucas
linhas para mostrar que podemos sim (e devemos) valorizar o que é
nosso.
Esse blog que estava
lendo, faz críticas aos governos passados do Maranhão, críticas
bem pertinentes por sinal. Mas em um dos artigos, ele joga um poema e
dedica ao poeta russo Vladimir Mayakóvki. Como nunca havia ouvido
falar nele, e não me contento com os 'pedaços' de informações que
a internet nos oferece, resolvi pesquisar.
Fui primeiro atrás
do poema: “Despertar é preciso”.
Então encontro em
um site de poemas a indicação: “Obs: Este poema não é de
Vladimir Mayakóvski”. Descubro então, que o poema colocado no
blog é apenas uma parte do poema, um parágrafo (se é que posso
chamar assim). Essa pequena parte é compartilhada por vários sites
e blogs sempre citando o russo.
Depois de alguns
cliques, descubro que o poema é de um brasileiro: Eduardo Alves da
Costa. Como e porquê o poema foi direcionado ao russo Maiakóvski?
Simples. O poema se chama “No caminho, com Mayakóvski”. Alguém
(não vou chamar de idiota), em algum momento, achou que o único
nome próprio, que se encontrava logo no início, era o nome do autor
do poema. O próprio título também foi mudado para “Despertar é
preciso”. Provavelmente porque é exatamente essa a mensagem do
poema. Que compartilho com vocês:
No Caminho, com Maiakóvski
de Eduardo Alves da Costa
"Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir."